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Enquanto o país discute se Brasil deve ser escrito como Z ou com S, o verdadeiro problema que é a falta de estímulo ao Turismo persiste, e o país continua a levar uma surra de destinos até menos privilegiados, mas melhor capacitados para atrair maior número de visitantes.

Estabeleceu-se em terras brasileiras exaustiva discussão sobre a decisão do governo de alterar a marca e slogan do país no exterior. Há argumentos convincentes de que esta iniciativa é inadequada e inoportuna.

Afinal, para que alterar a grafia em português de Brasil com s para o inglês de Brazil com z? Será que esta decisão colocaria em risco a nossa soberania linguística? Estas e outras pérolas ganharam prioridade nos debates, tanto no setor turístico como nas redes sociais.

Não é recomendável traduzir automaticamente o nome do país para o inglês. Vejamos o que ocorreria com a Turquia. O país em inglês é chamado de Turkey. Só que a palavra também quer dizer peru (a ave). Mas há um segundo significado, mais inconveniente, que quer dizer “estúpido”. Para complicar mais, o nosso vizinho de continente Peru teria legitimidade para também se chamar Turkey. Neste caso, novo problema: dois países com o mesmo nome.

Voltando ao Brasil, há uma lista de problemas com a nova marca. Representaria retrocesso em relação à anterior, pois faltou estudo e pesquisa de campo. Além disso, o slogan não soa bem em inglês. É incorreto gramaticalmente. Tem conotação sexual. E por aí vai…

Neste tiroteio intenso e barulhento, perdeu-se a mira sobre o real problema. Como qualquer mágico de circo mambembe sabe, a base da ilusão é fazer o distinto público desviar os olhos para realizar o truque. No caso da marca Brasil, deu-se total prioridade à forma enquanto o conteúdo não mudou. Ou seja, há muita fumaça para pouco fogo. Os erros estruturais que impedem o destino evoluir no Turismo permanecem os mesmos.

A verdade é que nos habituamos a conviver com um velho cacoete operacional. Toda vez que uma organização no país não funciona, ganha má reputação, ou muda de dono, simplesmente troca de nome. No setor privado isto funciona tanto em churrascarias de beira de estrada, hotéis mal operados, locais de má fama, como prestadores de serviços incompetentes, entre outros.

Já no governo, que possui PHD neste tipo de malabarismo, o modus operandi já foi usado à exaustão. No passado, serviu de departamentos que não sabem cuidar de índios (de SPI para Funai) a menores desamparados (de SAM, para FUNABEM, e mais tarde FEBEM). Isto para não falar nas taxas e impostos. Ao longo do tempo, há troca de siglas que lembram sopa de letrinhas, mas têm em comum arrancar mais dinheiro do contribuinte. Prevalece enfim o modelo “novo nome, velhos processos”.

No caso do Turismo, a triste rotina se repete. De que adianta uma marca, seja infeliz como a nova, ou genial como a anterior, se no final tudo continua igual?

É algo tão esdrúxulo como um rabo comandar o cachorro. Marcas não influenciam processos. Se bem idealizadas, refletem a essência do que representam. Modelos defeituosos na origem ou viciados pelo tempo não se desentortam diante da mera mudança de nomes ou logos.

O destino Brasil tem um dos maiores potenciais turísticos do planeta. Mas também acumula altíssimo nível de incompetência, amadorismo e desperdício de oportunidades. Além da falta de prioridade para o setor, gestões desastrosas de governos em todos os níveis, alto grau de apatia dos players, some-se ausência crônica de infraestrutura, insegurança e custos absurdos.

O descaso cobra uma taxa alta. Por exemplo, basta olhar o número de visitantes estrangeiros que praticamente estagnaram nas últimas décadas na casa dos seis milhões por ano. É menos que a visitação da Torre Eiffel em Paris.

O Brasil se especializou em exportar turistas. Tomemos os cruzeiros. Há cinco anos transportavam 800 mil brasileiros pela nossa costa. Hoje não chegam à metade. Segundo a CLIA (Cruise Lines International Association), dos 510 mil brasileiros que embarcaram em cruzeiros, quase 200 mil preferiram roteiros internacionais, principalmente Caribe (111 mil) e Europa (49 mil). Conspiraram os custos operacionais, falta de infraestrutura, impostos e regulação.

Enquanto o Brasil insiste em discutir a nova marca, o Turismo mundial, inclusive destinos sem maiores atrativos ou tradição, crescem a taxas invejáveis.

 

 

 

 

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