No bang bang entre Airbnb e hotéis não existe ainda um vencedor
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Há apenas oito anos, Airbnb era uma impronunciável mistura de letras que ninguém tinha interesse em decifrar. No estilo irreverente de seus criadores, o nome combinava duas coisas. As letras iniciais foram emprestadas de “air bed” – colchão inflável, usado nos Estados Unidos quando surgem visitas para pernoitar.

A segunda parte da palavra vem de “bed & breakfast”, ou seja, cama e café da manhã –  a essência da hotelaria.

Na época, ninguém deu muita bola ao aplicativo, e que nem de longe parecia ameaçar a sólida indústria da hotelaria. Foi um sério erro de avaliação menosprezar seu poder de fogo.

O Airbnb entrou no universo da hospitalidade pela porta dos fundos, que pelo jeito estava destrancada.

O modelo proposto era bem estranho, e tinha tudo para dar errado.

Qual era a ideia? As pessoas alugarem suas casas ou quartos ociosos por curto período de tempo a preços bem mais acessíveis que os hotéis. A rigor, nada de novo em relação ao conceito tradicional de locação por temporada. Mas o que fez toda a diferença foi isto ocorrer com base na economia compartilhada.

Todo mundo sabe o que aconteceu.

O Airbnb se tornou a quarta maior agência de viagens online do mundo, presente em 34 mil cidades, com 3 milhões de acomodações em 191 países. No Brasil, acumula 100 mil anúncios publicados, 40 mil deles no Rio de Janeiro, onde a empresa até se tornou parceira oficial nas Olimpíadas.

O Airbnb cresceu fora do radar porque não incomodava. No começo não atingia o cliente típico de hotel, apenas viajantes que até então dormiam em casa de familiares ou amigos. A coisa começou a pegar quando mexeu no bolso da hotelaria.

Não é para menos. Estudos da Boston University apontam que um aumento de 10% na atividade da empresa reduz 0,39% da receita mensal dos hotéis, principalmente os de lazer e econômicos.

O que mais preocupa: a consultoria PhocusWright prevê que a receita da Airbnb, hoje quase na casa de 1 bilhão de dólares, deve se multiplicar por dez até 2020, e a participação de mercado deve pular de 1 para 10%.

O Airbnb vive hoje um paradoxo: é ao mesmo tempo amado pelos consumidores e proprietários, mas detestado pelos hotéis. Destes, acumula mundialmente queixas de concorrência desleal.

Não se trata propriamente de má conduta da empresa. A falta de regulamentação da atividade, devido à velocidade com que surgiu e se estabeleceu, criou ambiguidades operacionais e zonas de conflito. Isto ocorre com a hotelaria da mesma forma que a Uber com os taxistas.

Os hotéis reclamam de condições desvantajosas de mercado em relação à Airbnb. Além de exigir pesados investimentos imobiliários, as suas obrigações vão além dos tributos. Incluem cumprir obrigações trabalhistas, normas de segurança, legislação rigorosa, inclusive de acessibilidade, além de pagar licenças, alvarás e seguros obrigatórios.

O FOHB, associação que representa 27 redes hoteleiras que atuam em 150 cidades brasileiras, diz que o Airbnb não investe, emprega, ou paga impostos, exceto os municipais. Por isto, querem que o governo regule a atividade para garantir condições de simetria.

“No lugar de RH ou engenheiros, eles contratam advogados”, ironiza o consultor Roland de Bonadona, ex-Presidente da Accor, maior rede de hotéis o país.

Faz sentido. Debaixo da artilharia, o Airbnb se defende. Diz que sua atividade é absolutamente legal e regular. Aceita discutir o impacto da sua plataforma e regulamentação, desde que não engesse a inovação e concorrência, pois quem perderia seriam o consumidor e a sociedade. O aplicativo não se considera concorrente dos hotéis, mas sim uma experiência diferente e complementar de hospitalidade.

O maior problema das plataformas da economia colaborativa é que ninguém consegue prever para onde o negócio vai. “Não há modelos de gestão consolidados: uma empresa aprende com a outra, e apresenta novas soluções que são incorporadas pelas demais”, explica Ana Paula Spolon, professora de hospitalidade e hotelaria da UFF.

A Airbnb não é exceção: transformou-se em caixinha de surpresas. A cada dia amanhece com uma novidade. A mais recente foi incorporar uma plataforma que chamou de Trips. Nela, além de acomodações, oferece experiências, seja lá o que isto quer dizer, e em breve terá voos e serviços.

Aguarde os próximos capítulos desta emocionante novela que só começou.

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Para quem não me conhece, sou Fabio Steinberg, carioca, administrador e jornalista. Trabalhei na área de comunicação de grandes multinacionais, e depois por conta própria como consultor. Um dia achei que estava na hora de me concentrar em escrever. Entre matérias jornalísticas e colunas, já falei sobre viagens e negócios, carreiras e comportamento, fiz resenha de livros e sempre que posso sobre tecnologia e como ela afeta o comportamento das pessoas. Ah, sim, também publiquei três livros e tenho um site com os meus principais textos. Até que resolvi juntar as pontas, da experiência profissional à paixão por temas tão fascinantes e diversificados, em um único caldeirão. Foi assim que nasceu este lugar. Através do jornalismo e experiencia pessoal, minha meta é compartilhar aqui idéias e informações. Espero que goste e volte sempre. Dividir este espaço com você e todos que aparecerem por aqui será não só gratificante, mas uma honra! Um abraço, Fabio Steinberg

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